Confesso-me admirador do trabalho do humorista Herman José, mas não posso dizer que seja um fã incondicional do artista. Mesmo assim, andei algo entusiasmado nos últimos meses com a perspectiva de ver reposto um dos programas televisivos que mais me marcou na minha infância: o Tal Canal.
Não sei se repararam, mas nos últimos tempos, fruto do trabalho árduo da máquina informativa municipal, muito se tem falado precisamente sobre um tal “canal”.
Infelizmente acabei por descobrir que não é o programa de humor dos anos 80 que vai ser reposto. O canal é outro.
Anuncia a nossa câmara municipal (nossa é uma força de expressão), que vai ser construído um canal na parte nascente da cidade que vai resolver “finalmente” o problema das cheias que afectam “todos os anos” a cidade.
Ora façamos então uma análise crítica (construtiva) à questão.
A cidade de Esposende tem vivido aquilo a que se pode chamar “problemas de cheias”, uma ou duas vezes por ano, grosso modo de 6 em 6 anos.
Poderíamos falar de 2001, ou de 2006, mas centremo-nos em Outubro de 2013, que parece ter sido o momento que fez despertar a imaginação de certos responsáveis.
O que aconteceu naquela noite resume-se a uma simples expressão: caiu uma tromba de água sobre o concelho. Por mais canais ou super-canais que existissem, nada teria impedido que todo o concelho fosse fortemente afectado pela intempérie.
E onde ocorreram os maiores problemas? Em Antas, Apúlia, Belinho, Curvos, Esposende, Fão, Fonteboa, Forjães, Gemeses, Gandra, Mar, Marinhas, Palmeira de Faro, Rio Tinto e Vila Chã. Resumindo: em todo o concelho.
Logo a Câmara Municipal se apressou a pedir a declaração de calamidade pública ao Governo, que na altura até era da mesma cor política, pedido esse que caiu literalmente em saco roto.
Posteriormente foi anunciado um investimento municipal superior a 1 milhão de euros na reparação dos danos provocados pelas cheias, apesar de mais tarde não se ter contabilizado mais do que 300 mil euros de obras para esse efeito.
Adiante.
Voltemos ao que interessa.
Perante esta inevitabilidade de todo o concelho, repito,de todo o concelho, se ver a braços com um problema desta natureza, mesmo que felizmente só aconteça esporadicamente, o que faz a autarquia? Ataca as zonas mais críticas? Não. Vai construir um canal de 4,7 milhões de euros entre a Solidal e a Avenida dos Banhos.
Mas afinal os problemas das cheias resumem-se a uma zona específica da cidade ou são um problema de todo o concelho?
Sejamos sérios.
Se o objectivo da Câmara Municipal fosse resolver os principais problemas de drenagem de águas pluviais no concelho, não canalizava, literalmente, 4,7 milhões de euros para umas centenas de metros de um canal.
A verdade é que se a gestão do dinheiro público não se fizesse ao sabor da realização de cerimónias pomposas de apresentação de projectos megalómanos para eleitor ver, por esta altura os recursos financeiros estariam a ser distribuídos e aplicados nos pontos mais críticos de cada uma das 15 freguesias. Aliás, o valor de investimento na execução desta obra é equivalente ao valor previsto no tão propagandeado Plano de Investimentos nas Freguesias 2015/2016. Ou seja, a Câmara Municipal propõe-se investir num só canal, tanto como diz que vai investir em dois anos em todas as freguesias do concelho de Esposende, em todas as obras.
Há anos que dentro da Câmara Municipal se sabe que a resolução do problema de drenagem de águas pluviais na zona nascente da cidade, que se agravaram com a construção da A28, passará pela construção de uma rede reforçada, integrada na futura Variante à EN13. Há anos que existem estudos na Câmara Municipal que apontam as soluções para o problema, e posso garantir que não passam pela construção de uma espécie de Canal do Panamá pintado de verde. A solução está na construção desta via estruturante, que também permitirá retirar do centro da cidade uma quantidade significativa de trânsito que circula na EN13 e que aumentou desde que foram introduzidas portagens na A28.
Mas afinal este canal veneziano pomposamente apresentado e anunciado servirá para quê? Que água vai correr neste canal nos 360 dias do ano em que não chove copiosamente? Alguém acredita que serão as linhas de água existentes que conseguirão alimentar este canal para que não se transforme num permanente depósito de lixo? Quanto vai custar ao Município e aos munícipes a manutenção dos milhares de metros quadrados de vegetação e de árvores que vão ser plantadas? A propósito, faz algum sentido tapar a cidade com uma muralha de árvores, como se tivéssemos algo a esconder?
Deixemo-nos de megalomanias.
Se há dinheiro, apliquem-no nos locais do concelho onde existem problemas de pluviais todos os anos, vários dias no ano, chova muito ou chova pouco. Já sei que vão dizer que o grosso da verba vem do Portugal 2020. Não deixa de ser verdade. Mas também não deixa de ser verdade que o Município terá de suportar parte do custo da obra e praticamente a totalidade do investimento nos terrenos.
Só mesmo o deslumbramento pelo momento do anúncio e pelo momento do cortar da fita explicam a ligeireza com que se tratam assuntos desta complexidade, ao ponto de terem achado que conseguiriam em pouco tempo negociar quase 200 parcelas de terreno.
É ao olhar para esta ideia peregrina da construção deste canal ou para o estado da restinga do Cávado que percebo a frase recentemente utilizada pelo responsável máximo do Município aquando da sua eleição para a presidência do PSD: “Não faltam os especialistas em trivialidades, capazes de garantir o paraíso, mas sabemos que o seu saber empírico esbarra nas primeiras dificuldades que se ergam”. Na mouche!