22 de agosto de 2016

O que é municipal é bom

Uma das opções de gestão que tomei enquanto autarca foi o de dotar a Câmara Municipal de recursos humanos e técnicos que lhe permitisse desenvolver internamente a esmagadora maioria dos projectos e estudos, reduzindo ao mínimo a contratação de empresas e técnicos externos para a execução deste tipo de tarefas.

Esta opção traz desde logo três vantagens: poupa-se muito dinheiro; o conhecimento da realidade do concelho por parte dos colaboradores do Município é muito maior; e por outro, a possibilidade de atribuir maiores responsabilidades e lançar maiores desafios a esses mesmos colaboradores constitui uma das maiores fontes de motivação e de empenho, decorrente do valor profissional que lhes estamos a reconhecer.

A prova de que era uma aposta acertada tive-a quando o projeto do Fórum Municipal Rodrigues Sampaio conquistou um prémio nacional, lado a lado com um projeto da autoria do Arq. Siza Vieira. Lembro-me perfeitamente de na cerimónia, em Lisboa, ao agradecer o prémio, ter referido com orgulho que se tratava de um projeto elaborado na totalidade por técnicos municipais.

Infelizmente a política seguida nos últimos 3 anos tem sido bem diferente. Feita uma análise muito superficial ao Portal dos Contratos Públicos, constata-se que no último ano e meio a Câmara Municipal de Esposende adjudicou cerca de 650 mil euros de projetos e estudos a empresas e técnicos externos, sabendo-se que a maioria, senão a totalidade, poderiam perfeitamente ter sido executados internamente.

Esta opção do actual Executivo denota por um lado falta de confiança e de reconhecimento de competência nos técnicos municipais e, por outro lado, uma clara má gestão e organização interna.

A falta de confiança nos técnicos municipais ficou rapidamente demonstrada quando o Executivo adjudicou a uma empresa externa, por mais de 21 mil euros, o desenvolvimento do novo site do Município. O anterior tinha sido integralmente concebido e desenvolvido dentro da Câmara Municipal, praticamente sem custos. Mais curioso ainda é saber que no final do anterior mandato ficou praticamente pronto um novo site, também ele totalmente desenvolvido pelos colaboradores municipais, trabalho esse que foi literalmente para a gaveta.

A este propósito do site, já agora também importa referir que nos termos do contrato celebrado com a tal empresa, o trabalho deveria ter sido concluído até 15 de Julho de 2015. Estamos no final de Agosto de 2016 e ainda não há site. Talvez venha a ser apresentado lá para 2017…

Em síntese, esta ideia de que os de fora é que são bons, para além de estar completamente errada, também custa muito dinheiro.

Há uns anos, um dirigente de um organismo público, afirmou alto e bom som numa reunião na qual estavam presentes vários autarcas, que do ponto de vista dos recursos e da organização a Câmara Municipal de Esposende era um “Ferrari”. Pois não adianta ter um Ferrari se não o tirarmos da garagem.

Mas esta avalanche de adjudicações de projectos e estudos a empresas externas também é um sinal de desorganização. A verdade é que durante 3 anos, pouco ou nada se fez, fruto da indecisão e da má definição de prioridades. Agora, como o tempo começa a ser curto para mostrar obra até às eleições, já não há capacidade de resposta dos serviços.

Não sei se haverá consciência disso, mas esta estratégia de se deixar tudo para a proximidade das eleições já não funciona há muito tempo. O político que menospreza a inteligência dos seus eleitores acaba por se dar mal.