20 de agosto de 2015

Folga aos incendiários

Acaba de falecer mais um bombeiro português, vítima de acidente de viação ocorrido quando se deslocava para o combate a um incêndio florestal.

Isto acontece poucos dias depois do Governo ter aprovado uma lei que retira os crimes de fogo posto da lista de prioridades da criminalidade em termos de investigação.

Esta decisão passou praticamente despercebida, porque na altura estava tudo mais preocupado com o resultado da Supertaça. Esse é aliás um problema que persiste: entretemo-nos com o supérfluo, passamos ao lado do essencial e depois tentamos emendar a mão com impropérios e insultos nas redes sociais, quando já é tarde.

Foi uma má decisão. Passar a tratar o fogo posto da mesma forma que se trata o furto de uma viatura, só pode ser uma má decisão, principalmente se tivermos em conta que isto acontece num país onde em plena época "alta" ocorrem mais de uma centena de fogos por dia, apresentando uma grande percentagem indícios de mão criminosa.

Esta folga aos incendiários até se perceberia se tivéssemos uma política efectiva de protecção da floresta, começando o próprio Estado por ordenar, proteger e limpar os terrenos que ele próprio tutela, nomeadamente os parques naturais, que não têm escapado ao flagelo dos incêndios.

Em suma, a "desclassificação" dos crimes de fogo posto até seria aceitável depois de se implementarem medidas efectivas e eficazes de redução dos fogos florestais. Assim é colocar o carro à frente dos bois, com a agravante de que no meio desta realidade há a realidade de milhares de homens e mulheres que colocam a sua vida em risco para protegerem aquilo que nem sequer é seu.

Uma coisa é certa, ninguém poderá rotular esta medida legislativa de eleitoralista. É que há mais bombeiros votantes do que incendiários. Pelo menos para já.